Sem arrecadação e em litígio com Aperam, o imponente Alfa luta para não fechar as portas

20.09.2017 - Fotos Alex Ferreira
TIMÓTEO - Localizado em uma área verde privilegiada, palco de grandes eventos sociais, esportivos e culturais no município de Timóteo, o Clube da Associação de Lazer dos Funcionários da Acesita (Alfa), fundado em 1984, pode fechar as portas. A história do Choupana, tradicional clube recreativo de Timóteo que fechou as portas no fim da década de 1990, pode se repetir com outro clube tradicional na cidade, o Alfa, caso a diretoria não consiga atrair novas adesões de associados para equilibrar gastos/ despesas e ainda livrar-se de uma interminável negociação com a Aperam South America.

Às voltas com a queda progressiva no número de sócios ao longo dos últimos anos, o clube tem hoje cerca de 660 titulares associados, dos quais, 336 são cotistas (proprietários), que arcam com uma taxa mensal de manutenção de R$ 101. Além de funcionários da siderúrgica localizada na cidade, o Alfa sempre aceitou a adesão societária de toda a população, mas nem isso freou a crise.
ASSEMBLEIA
Conforme apresentado em assembleia, com a presença de dezenas de sócios cotistas, na noite da última quinta-feira (14), atualmente, a arrecadação com a taxa mensal de manutenção, por si só, não pagaria sequer as despesas correntes do mês, que somam cerca de R$ 92 mil. Mas há ainda uma inadimplência na casa dos 30%, o que agrava o quadro financeiro, os parcelamentos de mais de R$ 2 milhões do Refis (refinanciamento de débitos tributários federais), referentes a dívidas acumuladas ao longo dos anos anteriores. Neste contexto, cresceram as dívidas com a folha de pagamento de pessoal, em atraso há três meses, e com fornecedores.
Essa manutenção abrange o clube de lazer em Timóteo e a Lagoa Bonita, sede campestre localizada a nove quilômetros do distrito de Revés do Belém, no município de Bom Jesus do Galho. 
A realidade do clube foi apresentada aos cotistas,  chamados para deliberar sobre mudanças no estatuto do clube, com o objetivo de ampliar o quadro de sócios. Depois de longo debate foram aprovadas novas modalidades de adesão. Agora, quem quiser ser associado somente para frequentar o clube de lazer em Timóteo poderá fazê-lo com uma mensalidade menor. Também foi criada uma modalidade para quem quiser ser associado para frequentar somente a sede campestre do clube, na Lagoa Bonita, em Revés do Belém.
Essa proposta visa atender interesse de moradores de Ipatinga, Vargem Alegre e Caratinga, entre outras cidades, a quem interessa apenas a área de camping e pesca do clube. E, ao mesmo tempo, atende aos que querem apenas o clube em Timóteo. Também foi criada uma comissão de sócios para acompanhar ações da presidência e conselho deliberativo, na tomada de decisões, entre elas, o fechamento das negociações com a Aperam South America.
“Convocamos essa assembleia inédita em um momento crucial do clube. Esclarecemos a realidade, coisa que nunca foi feita pelos gestores que passaram por aqui. Nesse momento, cabe ao sócio decidir se o clube continua ou fecha as portas. A assembleia aprovou as mudanças estatutárias sugeridas. O que fazemos é um esforço para manter o clube aberto até que sejam acertadas pendências processuais”, avaliou o presidente Luís Cláudio, o Tiné.
ENTENDA O CASO
Como se não bastassem todos os problemas enfrentados pelo Alfa, uma decisão recente da Aperam bloqueou operações do clube que tinham como finalidade aliviar a crise financeira. A empresa ingressou com uma ação na Justiça, alegando que a área onde se localiza o clube foi doada com a destinação específica para ser utilizada como clube de lazer.
O juiz de primeiro grau acatou o pedido da empresa e, com isso, a comercialização de quatro lotes ao lado da portaria do clube foi bloqueada. Sem condições de repassar a escritura dos imóveis, os compradores também pararam de quitar os pagamentos. A consequência imediata foi o acúmulo da dívida com fornecedores e com a folha de pagamento de pessoal.
Nesta terça-feira (19), atendendo ao pedido do JBN, a assessoria da Aperam informou que “a área em questão está em negociação pela empresa devido a um passivo do clube com a Aperam”.
DEVOLUÇÃO DA MAIOR PARTE DO IMÓVEL
Na assembleia de quinta-feira, os sócios foram formalmente informados da exigência da empresa, confirmando o que já era de conhecimento extraoficial de todos em caráter extraoficial. Para desistir da ação contra o clube, a direção da Aperam em Timóteo reivindicou aos diretores a devolução da maior parte do imóvel.
A área reivindicada pela Aperam começa na portaria, pega toda a pista de bicicross, um quiosque e vai margeando a estrada até o estacionamento das piscinas, depois vira à esquerda e separa toda a área verde. O clube perderia todos os quiosques de churrasco, todos os campos de futebol e as quadras de esportes, o que equivaleria a mais de 70% da área total. A maior parte do terreno é de preservação permanente, coberta por uma mata e à margem de um curso d´água.
Essa informação gerou protestos. Um dos associados lembrou que a área do Alfa foi doada pela antiga Acesita, quando a siderúrgica ainda era estatal, e que a exigência da Aperam é descabida. “Se tem alguém que poderia questionar qualquer coisa nisso aqui é a União, que à época da doação era a dona da Acesita”, argumentou o associado.
Outros defenderam que seja acionado o Ministério Público Estadual, e não faltaram críticas à decisão dos dirigentes da siderúrgica e à própria diretoria do clube Alfa.

A última esperança para escapar da falência é que a criação de novas modalidades de sócios consiga atrair novos usuários, no momento em que se aproxima o verão, com previsão de altas temperaturas entre 2017 e 2018.  
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